Sexta-feira, 22 de Agosto de 2008-08-22
Neste final de tarde em que escrevo a coluna, a última dos dias olímpicos, confiro aqui a relação das medalhas na China. Vê lá se eu, com esta vida inteira sempre ligado ao esporte, deixaria a Olimpíada passar em branco. De jeito algum!
Pra quem não me conhece direito, tenho que registrar os esportes que pratiquei na vida: futebol, basquete, vôlei, futebol de salão e tênis de mesa (que se chamava pingue-pongue). Só isso? Tá bom, tem mais alguns que nem conto porque eu ficava no banco de aspirantes... mas fiz salto à distância e salto em altura, além de levar muito xeque-mate no xadrez. Agora, o que eu mais gostava era de organizar torneios, criei até os Jogos Universitários de Londrina junto com o João Brauko, em 64, mas... chega né?
Então, voltemos a Pequim, porque domingo a Olimpíada termina.
A China é mesma a campeã geral em medalhas de ouro: 47 nesta tarde, contra 31 dos Estados Unidos, 18 do Reino Unido, 17 da Rússia, 14 da Alemanha. Daqui a pouco isso muda.
Na soma, todavia (ouro, prata e bronze), os norte-americanos estão emplacando 102 contra 89 dos chineses e 57 dos russos. Sou contra contar apenas ouro, defendo o total de medalhas (é o critério de vários países).
Nesta hora em 26º. lugar, o Brasil está com 12 medalhas – 2 de ouro, 3 de prata e 7 de bronze. Sem contar os países desenvolvidos, como Itália, França, Japão e mais alguns, além daqueles primeiros lugares, temos à nossa frente estes países pobres, ou em “desenvolvimento”: Jamaica (6 de ouro), Ucrânia (5), Bela Rússia (4), Etiópia (3) e Geórgia (3). Cuba e Quênia empatam em 2 de ouro, mas ganham no total ou em prata. Como são 77 os países que ganharam medalha, temos pra baixo de nós outros 51.
IGUALAR O RECORDE? – Teremos, começando agora, mais dois dias de Olimpíada e são poucas as chances do Brasil faturar mais uma ou outra medalha. A nossa Natália Falavigna, nesta noite, é uma das poucas esperanças. Temos 12 medalhas e duas outras garantidas no vôlei masculino e feminino, que podem ser de ouro ou de prata. Assim, 14 medalhas, uma a menos que o nosso recorde que aconteceu em Atlanta (EUA, 1996). Lá foram 15 no total, com 3 de ouro. Há quatro anos, em Atenas, conseguimos 5 de ouro, mas apenas 10 no total.
POR QUE A JAMAICA?
A estas horas em 11º. lugar, a Jamaica tem apenas 10 medalhas no total, perdendo para as nossas 12. Mas faturou 6 de ouro, daí esta excelente classificação para um país tão pequeno, à frente da França, da Espanha, do Canadá, do Brasil e vários outros.
O ouro jamaicano deve-se especialmente ao atletismo, em provas de velocidade. Aliás, já esteve no pódio quase 50 vezes e só uma não foi em corrida de velocidade, foi um bronze em ciclismo.
Vamos fazer uma visitinha a essa pequena ilha do Mar do Caribe. Fica perto de Cuba e do Haiti, tem apenas 10.991 km2 de área (6,5 vezes o município de Londrina), quase vinte vezes menor que o Paraná, com população na faixa de 2,7 milhões.
É um país pobre, população apaixonada por reggae, críquete e futebol. Como explicar, então, toda essa velocidade que coloca os jamaicanos com medalhas de ouro no peito, deixando para trás os corredores das grandes nações?
A resposta veio antes da Olimpíada: “A explicação para esta verdadeira fábrica de velocistas passa por uma estrutura montada especialmente para descobrir atletas potenciais. Apesar dos recursos escassos – o PIB do país sequer chega à casa dos US$ 12 bilhões -, a Jamaica conta com uma universidade especializada em formar treinadores e olheiros que garimpam novos talentos. Foi assim que a Jamaica descobriu Usain Bolt, atual recordista dos 100 metros com a marca de 9s72. Até os 12 anos, Bolt era um garoto pobre (...) que atingiu o estrelato nesta temporada ao bater o recorde de seu compatriota Asafa Powell, em maio, nos Estados Unidos”.
E O BRASIL ?
Todos os países pobres com sucesso nas competições têm a mesma resposta que a Jamaica: investem no esporte, montam esquema para descobrir talentos entre a população, nos bairros e nos vilarejos e proporcionam técnicas atualizadas. Daí, podem formar grandes atletas e colecionar medalhas mundiais.
O potencial brasileiro, por todas as condições que o País oferece, é dos primeiros de todo o mundo. Além do futebol, os esportes que ganharam estruturas internas, especialmente o vôlei e o basquete (nesta hora em baixa, mas como histórico respeitado) estão aí provando que temos tudo para disputar a Olimpíada com sucesso. O tema é vasto e os exemplos são muitos, a começar pela própria China, que em outros tempos era apenas figurante e hoje levanta a taça maior do esporte mundial.
Esse tipo de exemplo que nos dá a Jamaica pode também ser adotado por qualquer município, dependendo da força que clubes, escolas, empresas e administradores proporcionem a essa atividade tão importante na vida de qualquer povo.
NATAÇÃO LONDRINENSE JÁ BRILHOU
Londrina teve, há meio século, nos anos 50, uma experiência que impressionou os que faziam esporte amador no país. Como era possível uma cidade de apenas 20 anos, com população de uns 80 mil habitantes (a maioria da zona rural) formar tantos campeões de natação?
A explicação é de sentido jamaicano: um clube, o Londrina Country, tinha um treinador – Luiz Jorge Moreira – que preparou os filhos de associados e abriu a antiga piscina de 25 metros para jovens da cidade. Resultado: campeões paranaenses, brasileiros e até medalhas internacionais.
A cidade só tinha duas piscinas quando forjou campeões. Lembrando alguns nomes: João Brauko, Jorge Calixto, Horst Tolkimit, Lílian Moreira (filha do técnico), Glória Funaro, Rosa Maikuma, os irmãos Brandão e outros, muitos outros, que orgulharam Londrina. Alguns faleceram, mas a maioria está aqui, com suas inúmeras medalhas lembrando jornadas gloriosas.
De lá para cá, Londrina não teve mais campeões? Teve sim, um ou outro. Mas a cidade de meio milhão de habitantes, com centenas de piscinas, não esquece seus vencedores da pequena Londres coberta pela poeira roxa. Boas histórias como essa podem voltar a acontecer, com qualquer esporte. Basta querer.
Até segunda-feira.